Quase sempre criamos expectativas em nossas relações pessoais, afetivas,
familiares. Confiamos, acreditamos, gostamos e muitas vezes nos
decepcionamos e nos machucamos. Criamos ilusões diante de quem
conhecemos e quando estes têm comportamentos inesperados, o chão de
nossa segurança desaparece e nos sentimos ameaçados. Quando isso
acontece, muitas vezes custamos a acreditar nos fatos, apesar deles
serem reais e estarem à nossa frente. Como defesa para não sentirmos a
dor, negamos, fugimos, mas logo a mágoa volta para nos lembrar que fomos
enganados, traídos.
Muitas vezes, dependendo do grau do
envolvimento, acabamos por confundir a realidade com nossas necessidades
e vemos o outro como desejamos que fosse e não como ele se apresenta.
Ou seja, com muita facilidade confundimos ideal com real. Claro que
outras vezes, o outro faz de tudo para acreditarmos que ele seja como
anjo, mas com o tempo percebemos que estava muito distante disso.
Os
principais responsáveis por nossas desilusões somos nós mesmos, pois
idealizamos a outra pessoa e, ainda que inconscientemente, projetamos
nela a responsabilidade de satisfazer nossas necessidades. Assim,
perdemos a capacidade de discernir a realidade da necessidade e a
própria responsabilidade de suprirmos nossas carências.
Se
reparar melhor e voltar um pouco ao passado, talvez perceba que foi
enganado, na verdade, por ignorar sua intuição, sua voz interior, que
quase sempre diz: não vai dar certo, não confie, não vá adiante.
Ignoramos nossos valores como se não fosse correto confiar em nossa
própria voz. E aí nos enganamos e nos machucamos.
Isso quer
dizer que não devemos acreditar nas pessoas? Devemos acreditar acima de
tudo em nós mesmos, e muitas pessoas confiam mais em outras pessoas do
que em si próprias e esse não é o melhor caminho. O que devemos evitar é
colocar todo nosso referencial de vida e valores no outro, deixar de
viver a própria vida e viver a vida do outro. Não podemos perder nosso
referencial interno, pois ao mantermos nossas referências, ficará mais
difícil alguém nos decepcionar a ponto de nos perdermos de nós mesmos.
Algumas
pessoas sofrem demais, porque na verdade, esperam demais, ou ao menos,
esperam que o outro tenha respeito e valores semelhantes aos seus, o que
nem sempre acontece.
Confiar em alguém nos dias de hoje é algo
muito delicado. Se você se considera uma vítima constante de pessoas
assim, não será hora de parar um pouco e repensar sobre seus próprios
valores e a forma de conduzir a própria vida? Ou ainda, não confiar
tanto assim? Você pode sofrer por ter sido enganado, mas sofrerá muito
mais por ter se deixado enganar. De nada adiantará ficar revoltado,
brigar com o mundo, achar que não se deve mais acreditar no ser humano.
Mas talvez seja importante para você acreditar acima de tudo em você
mesmo.
Lembre-se que quem engana ao outro, na verdade, está
enganando e fugindo de si próprio. Ou seja, quem brinca com os
sentimentos de alguém, quem machuca o outro, está desrespeitando antes
de tudo a si mesmo, escondendo-se atrás de máscaras por não conseguir
suportar seus intensos conflitos internos. Parece que pessoas assim se
esquecem que com o tempo as conseqüências podem se inverter, tendo
efeito bumerangue: vai e volta. Estão tão atentas como lesar ou
prejudicar o outro que nem conseguem perceber o mal que estão causando a
si mesmas e nem se dão chance de descobrirem que podem ser muito
felizes sem ser preciso machucar alguém.
Em qualquer relacionamento,
e independente do tempo que se mantenha, podemos ouvir o que nos dizem,
entender o que pensam, ou melhor, dizem pensar, mas dificilmente
saberemos o que realmente sentem. Se até nossos próprios sentimentos nos
fogem ao controle, imagine o que o outro sente. Amizade, cumplicidade,
ética, responsabilidade, comprometimento, respeito, são valores hoje
muito difíceis de serem encontrados.
Talvez por isso, seja tão
importante valorizarmos aqueles que nos são caros, que mostram coerência
entre o que sentem, fazem e falam. E mais importante ainda, é
valorizarmos nossa intuição, que muitas vezes nos diz para não seguirmos
adiante, mas ignoramos e seguimos em frente e depois nos decepcionamos,
não só com o outro, mas também com nós mesmos. Por isso, observe mais,
fale menos e tenha a certeza que para alguém ser especial para você e
participar da sua vida, deve respeitar ao outro como a si mesmo o que,
infelizmente, poucos conseguem.
Por tudo isso, confie acima de tudo
em você! E no máximo em uma folha de papel em branco, se quiser
desabafar. E lembre-se do escreveu Jean Paul Sartre: Não importa o que
fizeram com nós, o que importa é aquilo que fazemos com o que fizeram de
nós.